A defesa da arte em 2017

A censura a exposições prenuncia um novo tempo de autoritarismo no país? Romancista paulista lista episódios de ataque à liberdade de expressão artística e discute seus possíveis desdobramentos

Crédito: Cortesia Galeria Jaqueline Martins

Hudinilson Jr., 1981 (Xerox sobre acetato)

É fato que manifestações artísticas estão sendo atacadas de forma coercitiva, violenta e orquestrada? Como saber se estamos avaliando corretamente a realidade? Como saber se os fatos que conhecemos são relevantes, se o peso que damos a cada um é correto? Como saber se não estamos em uma bolha em que tudo é visto com uma lente de aumento, ou então em uma bolha em que não entram acontecimentos que é importante conhecer, conectar entre si e daí conjecturar o rumo a que podem levar o país?

O futuro dirá se o que conseguirmos concluir, a partir do que hoje é tão confuso, de fato constitui a corrente principal da dinâmica social que vingará ou se, ao contrário do que dizem os artistas agora, atacar com violência a liberdade de expressão artística, não necessariamente conduzirá o país ao cerceamento de outras liberdades democráticas. Afinal, são apenas algumas exposições de arte contemporânea e peças de teatro.

O problema é que o futuro somos nós que fazemos. Se não defendermos a liberdade agora, porque é disso que se trata, o futuro será construído apenas pelas pessoas que têm conseguido fechar exposições, performances, difamar, agredir e constranger artistas e funcionários de museus. Listo abaixo alguns fatos:

Brasília, 15/7. Performance do artista paranaense Maikon Kempinski, promovida pelo Sesc, é interrompida pela Polícia Militar. O dançarino é detido e levado para a 5ª Delegacia de Polícia, para assinar um termo circunstanciado de ato obsceno.

Sorocaba (SP), 10/9. O vereador Pastor Luis Santos (PROS) solicita à prefeitura a remoção da pintura Femme Maison, da artista Panmela Castro, desenhada na fachada do Palacete Scarpa, sede da Secretaria da Cultura e Turismo de Sorocaba. A obra pintada é a reprodução de uma tela da artista que foi comprada pelo Museu de Arte Contemporânea de Berlim.

Porto Alegre, 10/9. Após manifestações acusando a mostra de incitar a pedofilia, o Santander Cultural cancela a exposição “Queermuseu: Cartografia da diferença na arte brasileira”. O prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan, apoia o fechamento da exposição. Prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, descreverá a mostra como incentivo à pedofilia, e impedirá que o Museu de Arte do Rio (MAR) a exiba, como se cogitou.

Jundiaí (SP), 15/9. A peça teatral O Evangelho segundo Jesus, rainha do Céu, da autora inglesa Jo Clifford, já exibida em outras cidades, é cancelada por liminar concedida pelo juiz Luiz Antonio de Campos Júnior, atendendo a pedido feito por congregações religiosas, políticos e pela TFP (Tradição, Família e Propriedade).

Campo Grande, 14/9. Os deputados estaduais Paulo Siufi (PMDB), Coronel David (PSC) e Herculano Borges (Solidariedade) registram boletim de ocorrência contra a obra Pedofilia, da artista plástica Ropre (Alessandra Cunha). A obra é retirada do Museu de Arte Contemporânea (Marco) de Mato Grosso do Sul e confiscada pela Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente.

São Paulo, 30/9. Funcionários do MAM-SP são agredidos física e verbalmente por manifestantes contrários à performance La Bête, de Wagner Schwartz. O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), apoia os manifestantes e aconselha a censura à obra.

Belo Horizonte, 5/10. A exposição Faça você mesmo sua capela Sistina, com obras de Pedro Moraleida, já visitada por cerca de 6 mil pessoas em trinta dias, no Palácio das Artes, é alvo de protesto de um grupo de evangélicos liderado pelo vereador Jair di Gregório (PP), que tentam impedir o público de entrar na exposição.

Rio de Janeiro, 6/10. Cancelamento da peça Bicho oca, um dia antes de sua estreia, e adiamento da exposição Curto circuito, ambas no Castelinho do Flamengo, por determinação da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro.

Essas ações têm sido insufladas pelo MBL (Movimento Brasil Livre) e por entidades religiosas. Obras com o mesmo teor das hoje acusadas de incentivo à pedofilia vêm sendo expostas há anos no Brasil. Parece evidente que essa onda de indignação é incentivada por quem nunca teve interesse em museu nem em teatro, mas que percebeu que há nessa área um espaço para fazer barulho, ganhar visibilidade, distrair as atenções da política do atual governo e ganhar força para as eleições de 2018.

Isso significa que devemos ficar quietos, evitar a confrontação, para que o MBL e algumas correntes religiosas sobressaiam menos? Esse tem sido o pensamento de alguns. Quando funcionários do MAM foram agredidos e a exposição acusada de pedofilia, pensou-se que ficar quieto seria a melhor maneira de tirar o foco do museu. De fato, logo outros museus e exposições foram atacadas, e não se falou mais do MAM.

Crítica é intrínseca à arte, mas não é disso que se trata. Falo aqui de violência física, constrangimento, difamação, difusão de notícias falsas e do medo. Falo de grupos organizados que têm sido capazes de, com a incitação de um número cada vez maior de pessoas, influenciar autoridades, como vereadores, prefeitos, deputados estaduais e federais, delegados e juízes, a censurar manifestações artísticas.

Este texto se dirige a não artistas, a pessoas para quem a arte é feita, para quem frequenta museus, teatro e acha importante ter a liberdade de escolher o que ver, ouvir e ler. Liberdade de ter ideias e expressá-las. A arte é para todos e sua defesa, também, por isso esta convocação, para que as pessoas lúcidas e responsáveis do país se manifestem publicamente contra a censura à arte.

Quem se manifestar contra esses grupos insufladores do ódio talvez receba represálias, talvez seja difamado em diversas mídias. Se for político, talvez perca votos, se empresário, clientes. Quem não se manifestar estará sendo conivente com o enfraquecimento de nossa democracia.

Deixar a defesa da arte apenas nas mãos dos artistas é um erro perigoso e uma covardia.

PS: a lista de fatos vai se atualizando:

Vitória, 23/10. A Assembleia Legislativa aprovou projeto de lei de autoria do deputado estadual Euclério Sampaio (PDT) que proíbe exposições artísticas com conteúdo considerado pornográfico (provavelmente os capixabas jamais poderão ver obras de Egon Schiele).