Augusto de Campos recebe prêmio na Hungria

Às vésperas de receber o Prêmio Janus Pannonius de 2017, um dos principais reconhecimentos internacionais a poetas vivos, o autor experimental brasileiro de 86 anos concedeu uma brevíssima entrevista para a Quatro Cinco Um sobre sua relação com a literatura húngara e com os prêmios literários

O poeta Augusto de Campos — criador, com seu irmão Haroldo e com o poeta Décio Pignatari, da poesia concreta — foi declarado na última sexta-feira (8) vencedor do grande prêmio de poesia Janus Pannonius, concedido pelo PEN Club da Hungria. Criado em 2012, o prêmio rapidamente firmou-se como um dos mais importantes reconhecimentos internacionais a poetas vivos. O francês Yves Bonnefoy, o sírio Adonis e o americano Charles Bernstein estão entre os vencedores em anos anteriores.

Às vésperas de embarcar para Pécs, cidade húngara onde a cerimônia de premiação será realizada no dia 23, Campos respondeu a duas perguntas da Quatro Cinco Um sobre a homenagem — que inclui uma rodada de conferências na Hungria e um prêmio de 50 mil euros — e sobre a antologia que acaba de lançar no país. O poeta receberá o prêmio ao lado do filho, o músico Cid Campos, que vai se apresentar na celebração.

Nesta brevíssima entrevista, ele sublinhou a importância de valorizar a poesia de vanguarda, pouco prestigiada no Brasil, com o prêmio Janus Pannonius. "Trata-se de um prêmio significativo internacional dado a um poeta experimental brasileiro", afirmou, por e-mail. "No Brasil, em mais de 65 anos de atividade, só recebi um prêmio pela minha poesia, em 2003, pelo livro NÃO". Na ocasião, a coletânea de poemas, lançada pela Perspectiva, foi eleita Livro do Ano no prêmio da Biblioteca Nacional.

A pedido da Quatro Cinco Um, Augusto de Campos também se pronunciou a respeito do recente fechamento, por pressão de movimentos extremistas, da exposição Queermuseu, na sede do Santander Cultural, em Porto Alegre: "É óbvio que sou inteiramente contra o cancelamento da exposição e contra os grupos de direita, quaisquer que sejam os seus nomes ou pseudônimos, sejam eles midiáticos, jurídicos ou legislativos. Isso fica evidente em toda a minha obra, e na minha posição expressa, desde meados de 2015, contra o golpe grotesco e ilegítimo que afastou a presidente eleita, acabou com a nossa democracia e deu força à nova direita brasileira".  

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A premiação é um novo ponto alto na relação literária entre Hungria e Brasil, que tem protagonistas como Guimarães Rosa, o tradutor e dicionarista Paulo Rónai, o romancista Sándor Márai, que escreveu sobre Canudos, entre outros grandes autores. Como define a sua relação com a tradição húngara?

Fico muito honrado com o fato de que você considere este prêmio um novo ponto alto na relação entre Hungria e Brasil, e traga à baila nomes tão ilustres e tão relevantes para a cultura dos dois países, e tão especialmente admirados por mim como o de Guimarães Rosa. Tenho, pessoalmente, em minha formação, elos importantes com a literatura, a arte e a música modernas húngaras. 

Mas não se trata só de relações culturais entre os dois países. Trata-se de um prêmio significativo internacional dado a um poeta experimental brasileiro, como o foi há dois anos, o Prêmio Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda, o primeiro a contemplar um poeta de língua portuguesa naquele país. Penso que é também nesse plano que deve ser considerada a distinção que me foi concedida.

Estamos falando de poesia, e de poesia "de vanguarda", ou de invenção, pouco valorizada pelas grandes mídias, e não só as nossas. No Brasil, em mais de 65 anos de atividade, só recebi um prêmio [de Livro do Ano da Fundaçnao Biblioteca Nacional] pela minha poesia, em 2003, pelo livro NÃO. Nunca pleiteei prêmios, e não concorri, fui concorrido, nos poucos em que soube que tinha sido considerado. Por isso recebi o atual  como os poucos,  anteriores, com humildade e muita surpresa. Mas é sem dúvida gratificante saber que há no exterior espaços  culturais que apreciam esse tipo de atuação poética tão raramente prestigiada entre nós.


Como foi o seu trabalho na tradução e edição da antologia? Em que pontos idiomas tão díspares se tocam?

O livro foi organizado por Ferenc Pál, que dirige um Centro universitário de estudos de literatura brasileira, em Budapeste, e reuniu para tanto  um grupo de especialistas. Eu contribuí com sugestões e com o fornecimento de imagens, uma vez que muitos dos meus poemas têm design próprio, e tive muita liberdade para isso. Mas não conheço o idioma, que é muito difícil, pois muito diverso das línguas neolatinas. 

Apesar disso, acompanhei passo a passo os trabalhos e fiz o que pude para auxiliar nas informações, interpretações e notas e mesmo em algumas traduções, como na do poema permutacional  "acaso" (1963), que descobri corrresponder à palavra húngara "esély", por acaso com duas vogais na mesma posição, permitindo a mesma composição anagramática do original com sessenta vocábulos. 

O antologista do meu livro, que leva o título Poemas verbivocovisuais, acolheu  as minhas sugestões para as capas. Na primeira capa. OLHO POR OLHO (1964), poema sem palavras, mas com  sinais de tráfego e imagens que denunciam o golpe militar e a guinada para a direita. Na quarta capa, o meu ACASO húngaro.

12 de setembro - 00h06