Da Grécia à Alemanha

Realizada entre Kassel e Atenas, a documenta, mais influente exposição periódica de arte contemporânea, reflete sobre as mútuas dívidas, culturais e econômicas, entre os dois países europeus

“Se transformássemos a crise num espetáculo trágico, Grécia e Alemanha seriam não cenários, mas dramatis personæ, protagonista e antagonista de um conflito aparentemente irresolúvel. Porém, é preciso recordar que a relação de dívidas, entre os dois países, não se inicia com a crise recente, em que a Grécia ‘deve’ à Alemanha, mas é uma sobreposição de inúmeros momentos de intercâmbio. Já é proverbial a noção de que, se a Alemanha saldasse suas dívidas de guerra com a Grécia, a Grécia sairia mais fácil da posição presumivelmente eterna de ‘devedora’. No entanto, o endividamento recíproco vai muito além do plano econômico: toda a grande cultura alemã desde o século 18 se construiu a partir de uma contínua relação com uma (ou mais de uma) ideia de Grécia. Tanto o classicismo quanto o romantismo alemães assimilaram e reinterpretaram de modo incessante o legado grego; sem a Grécia, não teríamos Hölderlin ou Winckelmann, Nietzsche ou Heidegger. Mas também a Grécia, tal como hoje a conhecemos, não existiria sem essas reinterpretações por parte de escritores e pensadores alemães, inclusive no plano mais concreto: sem a arqueologia alemã, muito do passado grego permaneceria enterrado e incompreendido.” 

Trecho do ensaio Mapas para um mundo em crise, do crítico Eduardo Sterzi, na edição de setembro da Quatro Cinco Um

 

O Fridericianum de Kassel, espaço central da exposição desde sua fundação, em 1955, ostenta a inscrição Estar a salvo é apavorante (Being safe is scary), o grande motto da documenta, produzida pelo artista turco Banu Cennetoğlu (Ankara, 1970) com letras de alumínio. Este foi o primeiro prédio no mundo construído com o objetivo de ser um museu, mas o destino reservou algumas surpresas. Coprodução de: Kunstgiesserei St. Gallen, Sitterwerk, Switzerland Friedrichsplatz. Crédito: Roman Maerz.

 


A tenda de mármore (Biinjiya'iin Onji) de Rebecca Belmore, que consiste numa reprodução dos abrigos utilizados por refugiados e imigrantes, instalada na coluna de Filopalo, a Coluna das Musas, em Atenas. ​Pela primeira vez desde sua fundação a documenta se estendeu a uma segunda sede, a capital grega. Em seu ensaio Sterzi reflete como o deslocamento recupera o vínculo com a atualidade geopolítica que esteve presente na origem da documenta. A exposição nasceu em meio a Guerra Fria não só para reconciliar a população com a arte moderna e contemporânea após o período nazista, mas também criar um contraponto artístico positivo e reinventar o papel da Alemanha no cenário cultural. Crédito: Fanis Vlastaras.

 


O obelisco de concreto do artista nigeriano Olu Oguibe (Aba, 1964) em homenagem aos estrangeiros e refugiados, instalado na Königsplatz de Kassel. A obra traz a inscrição “Eu era um estrangeiro e me acolheste”, retirada do evangelho de Mateus, nas línguas alemã, turca, árabe e inglesa. Crédito: Michael Nast.

 

Atlas fraturado, obra de Theo Eshetu (Londres, 1958) exposta na documenta de Kassel, que consiste num vídeo que mostra rostos de várias etnias e a combinação de seus traços faciais. Sterzi traz uma reflexão muito atual tanto para a crise de refugiados na Europa, quanto para as discussões em torno dos direitos indígenas no Brasil, ‘O que há de comum entre refugiados e indígenas é o fato de serem vistos, aos olhos da ilusão de unidade nacional, como estrangeiros - embora os segundos o sejam, incrivelmente, nas suas próprias terras’. Coprodução de: Medienboard Berlin-Brandenburg GmbH, Berliner Künstlerprogramm des DAAD e Tarabya Cultural Academy. Crédito: Mathias Voelzke.

 


Pintura do artista albanês Edi Hila (1944, Shkodër) da série Uma tenda no teto de um carro, exposta em Atenas. A tenda foi um tema recorrente da documenta 14, símbolo das discussões entre precariedade e transietoridade versus estabilidade e seguranças definitivas, cada vez mais raras em nosso mundo. Crédito: Mathias Voelzke

 


O Partenón de los Libros, instalação de Martha Minujín exposta na documenta de Kassel, que remete a uma obra anterior da artista argentina realizada em 1983, ao final da ditadura argentina, em Buenos Aires. A peça principal da documenta 14 replica o Partenon ateniense, criada a partir de tubos de aço recobertos por mais de 100.000 textos proibidos durante a história é mais um elo entre passado e presente. A obra está localizada na Friedrichsplatz, local onde os nazistas queimaram mais de 300 mil livros. No domingo passado, os livros começaram a ser distribuidos ao público para serem lidos, desmontando assim a obra. Crédito: Roman Maerz

 

Leia o ensaio Mapas para um mundo em crise, do crítico Eduardo Sterzi, na edição de setembro da Quatro Cinco Um