De Chimamanda para Djaimilia

“Quero continuar a contar histórias que conversem comigo.”

Por ocasião do lançamento da tradução brasileira dos contos de No seu pescoço (Companhia das Letras), de Chimamanda Ngozi Adichie, a Quatro Cinco Um convidou a escritora portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida, admiradora confessa da autora nigeriana, para escrever uma resenha do livro. O texto foi publicado na edição de setembro da revista dos livros. 


A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie

“Adichie é impiedosa na descrição da Nigéria do presente, facto realçado pelo seu estilo sem fogo de artifício. A sua prosa tem o compasso de uma história antiga e a fluência sem constrangimentos das páginas de diário de uma mulher segura de si. Lugar onde reina a arbitrariedade, a sua Lagos natal surge-nos no cruzamento entre dois pólos — a família e o Estado — no qual as suas narradoras testemunham o vexame dos seus familiares às mãos do poder. Mas Lagos é nestes contos apenas o ponto de partida de uma viagem que conduz as personagens à lotaria do Ocidente.”

A pedido da revista, Djaimilia enviou algumas perguntas para Chimamanda. Leia abaixo as respostas, marcadas pela concisão e o senso de humor que encontramos no desenho das personagens dos seus contos.

Você acha que o/a autor(a) deveria espelhar seu tempo? Como autora renomada, qual você considera ser o seu papel na literatura atual?

Eu não penso no meu “papel” porque não é assim que penso no que faço. Escrever é a minha vocação. Quero continuar a contar histórias que conversem comigo. Acho que um escritor deve espelhar aquilo que ele queira espelhar. Alguns escritores focam no passado, e isso tem o mesmo valor do que ter um foco contemporâneo.

Na sua opinião, qual é o lugar (se é que existe) da literatura na África hoje?
A literatura é uma parte essencial de toda sociedade. Uma nação precisa de seus poetas tanto quanto precisa de seus políticos. 

No seu pescoço é uma coletânea de contos. O que te compele em particular na estrutura do conto?
Alguns assuntos parecem mais apropriados para contos. Mas nem sempre é uma decisão inteiramente consciente. Uma ideia às vezes me vem na forma de um conto.

Você parece empoderar suas personagens (pense em Akunna, por exemplo) com a chance de escolher seu próprio caminho, mesmo quando elas parecem ser vítimas das circunstâncias. Você concorda? O autor deveria seguir algum tipo de ética ao construir seus personagens?
Sou muito interessada em seres humanos. Observo o mundo bem de perto. Observo pessoas. Acho que personagens devem ser humanos, isto é, devem ser imperfeitos.

Você poderia dividir conosco alguns dos seus planos de livros para o futuro?
Sou uma mulher igbo [grupo étnico africano com população concentrada na Nigéria], supersticiosa demais em relação a trabalhos em andamento. Não gosto de falar sobre nada no futuro.