O Brasil no meio do caminho

Morto em maio, Antonio Candido virou literatura e já pode cumprir “o desejo de penetrar nas obras como em algo vivo”

Crédito: Clarisse Escorel

Em fotos feitas por sua neta Clarisse, o crítico literário Antonio Candido faz micagens para um de seus bisnetos, também chamado Antonio Candido, durante reunião familiar na Páscoa de 2016, em seu apartamento em São Paulo

A morte de Antonio Candido, no dia 12 de maio passado, despertou uma sensação de perda coletiva que há muito tempo não se manifestava no país. Uma enxurrada de postagens e telefonemas se produziu em poucas horas, como se de algum modo fosse inesperado o falecimento de uma pessoa de 98 anos. A nação inteira ficou órfã — dizia o lugar-comum, sem que se possa conciliar direito essa certeza com o fato perturbador de que apenas uma parte reduzida dela sabe de quem se trata.

O sentido público do acontecimento trouxe uma perplexidade a mais para um contexto nacional já bastante desnorteado. Muita gente lamentou: “Logo agora?”.

 Mas justamente agora, quando o Brasil ameaça despedaçar-se, enquanto cada um recebe o convite do cinismo, de um lado, e o do desespero, do outro, fazia falta um estalo cívico que viesse dizer a todos que nem tudo está perdido. Uma infestação corrói o Estado, tripudiam da Constituição, a Seleção apanha de sete a um — mas ainda temos a Formação da literatura brasileira e a Educação pela noite, ainda relemos a “Dialética da malandragem” e o “Esquema de Machado de Assis”, ainda existem Os Parceiros do Rio Bonito.

Perder Antonio Candido nos relembra que o ganhamos. Certo: outro “mestre açú” já tinha feito esse jogo de palavras, e foi Carlos Drummond de Andrade, numa primeira pessoa singular: “Ganhei (perdi) meu dia”. Mas a lembrança não deixa de ser oportuna. Também o poeta tinha despertado um elo público semelhante, ao morrer, há trinta anos. Conforme o tamanho do legado, uma espécie de consciência nacional se põe em movimento, rangendo por falta de uso, e verifica a presença de uma obra colossal, enfim concluída, que pode entrar no inventário do patrimônio de todos.

Esse clique decisivo aciona — como se fosse um vírus — uma inusitada primeira pessoa do plural, que de um momento para o outro começa a ser dita e teclada com uma naturalidade espantosa. Temos Drummond, temos Candido. Não somos uma colônia de senhores e escravos, uma republiqueta de delatores e terceirizados, uma corte de suspeitos e juízes rastaqueras.

O grande crítico fez sua parte: agora que deixa o cenário, tornou-se Antonio Candido “como sistema”, passou a viver nas interações ocasionadas pela sua obra, no trabalho de seus ex-alunos, no debate de seus críticos, no rendimento das questões que levantou. Morto, finalmente está formado, virou literatura. Já pode ser ele mesmo objeto daquilo que motivou sua própria empreitada: “o desejo de penetrar nas obras como em algo vivo”.

Mas o desejo de interpretação, para Candido, já era uma forma de empenho coletivo, porque esse “algo” das obras, estando vivo, era algo “indispensável para formar nossa sensibilidade e visão de mundo”. Como assim, “nossa”? Ao que parece, ele se referia a essa mesma entidade que agora lhe põe flores no túmulo, a qual se pode chamar de “brasileira”.

Vem daí o outro lugar-comum que se juntou ao da orfandade pública, em todas as redes sociais: morreu o último dos “intérpretes do Brasil”. O lamento trai uma nostalgia indisfarçável, é verdade, como uma saudade de ouvir vozes muito sábias e provectas, cheias de autoridade, que generosamente viessem proferir as grandes verdades sobre a nacionalidade e o “nosso” modo de ser, para além do assalto à mão armada, da bala perdida e da reintegração de posse ou das cacetadas da PM em estudantes e professores.

O Brasil continua a ser um problema; quando não está no meio do caminho, acha-se dentro do sapato

Mas não é só isso: trata-se também de uma irresolução. O Brasil continua a ser um problema para cada um; quando não está “no meio do caminho”, acha-se dentro do sapato. Qualquer pessoa instruída, hoje, pode desligar a tv e ir se sentar ao lado de Cláudio Manuel da Costa, diante do lamaçal de Mariana, e dizer: “É, meu velho, 1789 vem aí”. São as mesmas questões, ainda que tardias. Mas, enquanto a liberdade não vem, pelo menos seria necessário nos livrarmos do Brasil como problema.

De fato, como nos clássicos “intérpretes do Brasil”, em Candido também se lê uma primeira pessoa do plural raras vezes questionada, apesar de tão evidentemente ser feita de exclusões e violências. Em 1933, para louvar a influência do “elemento negro”, Gilberto Freyre dizia que “todo brasileiro” lembra da escrava “que nos embalou”, da mucama “que nos tirou o primeiro bicho-de-pé”, da mulata “que nos iniciou no amor físico”. Sem perceber que, dessa forma, o pronome átono exclui nitidamente escrava, mucama e mulata do sintagma “todo brasileiro”, que parece restringir-se a pessoas abastadas — e do sexo masculino.

Também foi oblíquo Sérgio Buarque de Holanda, que não perguntou a opinião do motorneiro do bonde, antes de iniciar o Raízes do Brasil, em 1936, com aquela frase-bomba: “Somos ainda uns desterrados em nossa terra”. Apenas Caio Prado Júnior soava mais abrangente, ao afirmar na Formação do Brasil contemporâneo, de 1942, que “não completamos ainda hoje a nossa evolução da economia colonial para a nacional”.

Não que essas afirmações fossem falsas, apenas por serem parciais — como se a “interpretação do Brasil” devesse começar pela elite culta. Mas elas também declaram sem querer a grande verdade de um vazio por trás do pronome, além da inquietante possibilidade de ser com essa lacuna que de fato se identifica “o” brasileiro, como se fosse um Narciso embananado.

É difícil concordar que Candido fosse “o último dos intérpretes do Brasil”. Não só porque, desde 1959, quando ele publicou a Formação, muito avanço se deu no pensamento social brasileiro. Inclusive na alçada da crítica literária, por meio de muita gente direta ou indiretamente ligada a ele, como Roberto Schwarz, Luiz Costa Lima, José Miguel Wisnik e Flora Süssekind. Mesmo assim, não é tanto um tarô, e sim um constante questionamento do Brasil, que o mestre ajudou a incitar.

Seria arriscado aceitar que o intérprete magistral de Oswald de Andrade, Gonçalves Dias, Clarice Lispector e Tomás Antônio Gonzaga estivesse, no fundo, interpretando o Brasil, ou a “realidade” brasileira. Este país é tanto o Grande sertão: veredas e O cortiço quanto a cabeça cortada de um detento ou as mãos decepadas de um índio, assim como ele é também a Ferrari de um mauricinho arrebentada num poste, numa avenida qualquer de São Paulo. Ainda que essas coisas estejam sempre relacionadas, não se reduzem juntas a um mesmo substrato, como uma “identidade”, e não um buquê de repulsas e esbulhos.

Modernismo

Mas é certo que Candido formou sua obra diante da urgência de compreender o Brasil que se renova em momentos cruciais, sempre que a consciência pública acorda para o tanto de coisa ainda por fazer. Toda a trajetória do crítico foi marcada decisivamente pelo impacto do modernismo de 1922. No fundo do mato-virgem, está a pergunta modernista sobre a contribuição específica do Brasil ao “concerto das nações” (como dizia Mário de Andrade). Quem morreu foi um dos filhos mais diletos dessa virada, educado na Universidade de São Paulo, criada em 1934, dentro desse mesmo projeto nacional, para formar quadros de elite que pudessem contribuir para a modernização do país.

Nascido no Rio, em 1918, de família mineira, criado no sul de Minas e crescido em São Paulo, Candido foi das primeiras turmas formadas pela usp. Entrou em 1939 e saiu formado na seção de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, em 1942. Nesse mesmo ano ingressa no corpo docente, como professor de sociologia. Defendeu tese em 1945. Doutorou-se em 1954. Ainda lecionou literatura brasileira na Faculdade de Filosofia de Assis (hoje da Unesp), até 1960, antes de se tornar o titular de teoria literária e literatura comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da usp (que os paulistas chamam de “Fefeléche”).

Era a carreira acadêmica exemplar de um perfeito chato-boy — que era o termo usado por Oswald de Andrade para debochar dos jovens muito sérios e sabidos que em 1941 criaram a revista “Clima”. “Antonio Candido e seus chato-boys”, dizia o antropófago, referindo-se também a Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e Lourival Gomes Machado. Mas a formação universitária se dava em paralelo com uma intensa militância na imprensa, primeiro na Folha da Manhã (do grupo que hoje publica a Folha de S.Paulo), depois no Diário de São Paulo, no qual o jovem uspiano assinava o “rodapé” semanal de crítica literária.

Essa presença diante do público, extramuros, não desapareceu com a consolidação da carreira acadêmica. No final dos anos 1950, enquanto escrevia os dois volumes da Formação, Candido criou o projeto editorial do Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, com o qual colaborou regularmente. Na década seguinte, dedicou-se ativamente à Cinemateca Brasileira. Na outra, dirigiu a revista Argumento, que os brucutus do regime militar mandaram fechar.

Se olhamos para a São Paulo e para o Brasil de hoje, observa-se o estado de abandono, senão de perseguição, enfrentado por cada uma dessas instituições modernas. A usp continua a ser uma das três principais universidades do hemisfério Sul, mas isso se deve antes ao lastro de sua cultura e à resistência de sua comunidade do que a uma política sustentada de apoio e fomento. A Cinemateca Brasileira continua a ser o maior centro de documentação e difusão do cinema nacional, mas isso se dá apesar dos solavancos e das ameaças que recebe sistematicamente, a partir do Ministério da Cultura, e não é de já. Por fim, enquanto a grande imprensa arma seu tribunal paralelo, deixa os suplementos de “cultura” serem colonizados pela indústria do entretenimento, espremendo a crítica em umas poucas tripas de resenhas bocós — embora haja exceções, igualmente devidas a uma atitude de resistência adotada por uma minoria de editores.

Candido foi para a literatura o que Celso Furtado foi para a economia brasileira

No espírito de empenho público preconizado pelo modernismo, Candido foi para a literatura o que Celso Furtado foi para a economia. Enquanto um estudava as disparidades sociais do Brasil e martelava uma teoria da dependência sistêmica, em contraposição à ideia de um mero atraso econômico, o outro investigava o impacto literário da “consciência dilacerada do subdesenvolvimento”, surgida no pós-guerra, por oposição à “consciência amena de atraso” típica do intelectual brasileiro da República Velha.

É claro que esse embate se voltava contra o “liberalismo ornamental” das classes dominantes, que Candido via exposto nas páginas de Raízes do Brasil, e que seu aluno Roberto Schwarz demonstrou casar-se muito bem, no século 19, com o regime escravocrata. Assim como hoje, em roupagem neoliberal, encara a Justiça do Trabalho como entrave e não como civilização.

Justamente na interseção entre o modernismo e os “intérpretes do Brasil”, Candido se espelhava muito em Sérgio Buarque de Holanda, amigo mais velho e interlocutor por décadas a fio. É impossível concordar com ele, quando dizia que o autor de Raízes era “o maior crítico literário brasileiro do século 20” — porque esse título só cabe ao próprio Candido. Mas o que ele mais admirava na obra ensaística do amigo?

Entre outras coisas, a “desmistificação da retórica liberal”, a “tentativa de substituir a platibanda liberaloide por algo mais vivo”, a indicação de um caminho para “liquidar o passado, adotar o ritmo urbano e propiciar a emergência das camadas oprimidas da população, únicas com capacidade para revitalizar a sociedade”, além da aplicação da vida intelectual como arma “para abrir caminho aos grandes movimentos democráticos integrais”. E quais são estes? São os que “contam com a iniciativa do povo trabalhador e não o confinam no papel de massa de manobra, como é uso”.

Tal é a afinidade que reuniu Sérgio Buarque e Candido entre os fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980, lado a lado com dirigentes operários e outras lideranças de esquerda. O pai de Chico Buarque morreu dois anos depois, vinte antes da primeira eleição de Lula à Presidência da República. Já Candido viveu para ver os acontecimentos de 2005, com os escândalos do “mensalão”, e toda a turbulência que o país atravessa hoje, desde a segunda eleição de Dilma Rousseff.

Refluxo

Candido morreu num tempo de refluxo, com a emergência de fundamentalismos antimodernos. Talvez o horror de uma parte da opinião pública tenha feito tanta gente se lembrar de um discreto ensaio que ele vinha elaborando e reelaborando desde o fim dos anos 1960 e publicou em 1988 — justamente o ano da Constituição Cidadã que agora está sob ataque. É “O direito à literatura”. O crítico aí se exercita como teórico, para avançar a tese de que a literatura, ao reordenar o mundo a partir da imaginação, é capaz de “confirmar a humanidade do homem”, tornando-se por isso mesmo um direito fundamental.

Mas essa “humanidade” teria em si algo de normativo, prescritivo? Seria uma pauta moralista? Nada disso! Ela se refere a traços específicos, tais como “o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor”. Não se trata de uma visão da literatura restrita aos temas elevados e edificantes. Para Candido, a literatura “não corrompe nem edifica”, simplesmente ela forma a pessoa humana mais “humanizada”: “trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver”.

Nossa literatura é pobre, mas ela nos humaniza: ‘Se não a amarmos, ninguém o fará por nós’

Muita coisa controversa da Formação se entende melhor por aí. É famosa a metáfora botânica, em que a “nossa” literatura é “galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas”. A brasileira é uma literatura “pobre e fraca”, diz o crítico, mas ela nos humaniza num sentido específico, mais “nosso”, por menos que se saiba o que há por trás desse vazio. “Se não a amarmos, ninguém o fará por nós”. Impossível não recordar Drummond: “É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.

Como está o Antonio Candido? — perguntavam sempre, nos últimos dois anos. A resposta era a mesma: continua lúcido. É impressionante a permanência dessa chama até o fim, alimentada e contida desde sempre por rigoroso sentido de compostura intelectual. Talvez só isso baste para afastar da imagem de Candido — e por tabela do Brasil moderno e democrático por inteiro — a ideia de que sua geração fracassou, de que agora precisamos começar do zero (se é que existe alguém por trás do pronome “nós”).

Não precisamos. Os lugares-comuns têm sua verdade. Temos Drummond, temos Candido. Se for preciso, podemos recomeçar daí.